DOIS CASOS DE “CURA DO HIV” GANHAM DESTAQUE NO MUNDO CIENTÍFICO
TRANSPLANTES COM MUTAÇÃO RARA OFERECEM PISTAS PARA TERAPIAS GENÉTICAS E ANTICORPOS
João Carlos
29/07/2026
Dois novos casos apresentados em 29 de julho, durante a 26ª Conferência Internacional sobre AIDS (AIDS 2026), realizada nesta semana no Rio de Janeiro, reforçaram que a cura do HIV é biologicamente possível, embora ainda esteja distante de um tratamento acessível para toda a população. Um dos relatos foi apresentado por pesquisadores da Universidade de Duisburg-Essen, na Alemanha. O outro acompanha o chamado paciente de Kansas City, nos Estados Unidos.
Depois de suspenderem os medicamentos antirretrovirais sob rigorosa supervisão médica, os dois pacientes permanecem sem rebote detectável do vírus por períodos próximos de um ano, chegando a 14 meses em um dos casos. Como o acompanhamento ainda é relativamente curto, os pesquisadores usam expressões como possível cura e remissão sustentada, evitando considerar o resultado definitivo neste momento.
Os relatos se juntam a um grupo mundial ainda muito pequeno. Como alguns pacientes são classificados como curados e outros permanecem na categoria de remissão, as publicações científicas não adotam uma contagem única para esses casos.
Embora a expressão “cura da Aids” seja comum no noticiário, o termo tecnicamente mais preciso é cura ou remissão do HIV. O HIV é o vírus que ataca o sistema imunológico, enquanto a Aids representa o estágio mais avançado da infecção quando ela não está controlada.
Como o transplante reconstrói a imunidade
Nos dois novos casos, o transplante de células-tronco foi realizado porque os pacientes também enfrentavam doenças hematológicas graves. Trata-se de um procedimento indicado para combater determinados cânceres e alterações do sangue, não de uma terapia que possa ser oferecida rotineiramente às pessoas que vivem com HIV.
As células usadas não são embrionárias. São células-tronco hematopoéticas, responsáveis pela formação do sangue e das células do sistema imunológico. Antes do transplante, o paciente recebe um tratamento de condicionamento, geralmente com doses elevadas de quimioterapia e, em alguns casos, radioterapia. Essa etapa combate a doença, reduz as células antigas e abre espaço na medula óssea.
Em seguida, células saudáveis de um doador compatível são administradas pela corrente sanguínea. Elas chegam à medula e passam a produzir novas células sanguíneas e de defesa. Quando o processo funciona, grande parte do sistema imunológico do paciente passa a ter origem no doador.
O diferencial dos dois casos está na mutação genética CCR5-delta32, presente nas células dos doadores. O CCR5 funciona como uma das “maçanetas” utilizadas pelas variantes mais comuns do HIV para entrar nos linfócitos CD4. Quando uma pessoa possui duas cópias da mutação, essa porta praticamente desaparece da superfície das novas células.
O efeito, porém, não depende apenas da mutação. A quimioterapia pode reduzir parte do reservatório viral, formado por células nas quais o HIV permanece escondido. Ao mesmo tempo, o sistema imunológico do doador substitui as células antigas e pode atacar algumas das células infectadas que sobreviveram. A mutação CCR5-delta32 completa essa combinação ao dificultar que o vírus volte a infectar as novas células.
Por que não é um tratamento para todos
O transplante é complexo, caro e pode provocar infecções graves, danos a órgãos e a chamada doença do enxerto contra o hospedeiro, quando as células recebidas atacam tecidos do paciente. Também existe risco de morte relacionado ao procedimento.
Por isso, o transplante só é considerado quando uma doença hematológica já torna essa intervenção necessária. Para uma pessoa cujo HIV está controlado pelos antirretrovirais, os riscos seriam muito maiores do que os possíveis benefícios. As autoridades médicas também reforçam que a suspensão do tratamento contra o HIV deve ocorrer apenas em estudos clínicos cuidadosamente monitorados.
O mapa para uma cura em larga escala
O valor desses casos está menos em transformar o transplante em tratamento contra o HIV e mais em mostrar aos cientistas quais mecanismos precisam ser reproduzidos de maneira simples e segura.
Uma das estratégias é retirar células do próprio paciente, editar o gene CCR5 com ferramentas como o CRISPR e devolvê-las ao organismo. Como seriam células do próprio indivíduo, essa abordagem poderia evitar a busca por um doador raro e reduzir o risco de rejeição.
Em estudos pré-clínicos, pesquisadores conseguiram editar mais de 90% das células-tronco hematopoéticas e produzir células de defesa resistentes às variantes do HIV que usam o CCR5. Quando a proporção de células editadas foi menor, a proteção também caiu. O desafio agora é modificar um número suficiente de células duradouras, sem causar alterações genéticas indesejadas e sem deixar espaço para variantes do vírus que utilizam outra porta de entrada, chamada CXCR4.
Outra frente envolve os anticorpos amplamente neutralizantes, conhecidos como bNAbs. Eles reconhecem regiões do HIV que mudam pouco entre diferentes variantes e bloqueiam o vírus antes que ele consiga infectar novas células.
No estudo RIO, realizado com 68 participantes, uma combinação de dois anticorpos reduziu em 91% o risco de rebote viral após 20 semanas. Metade dos participantes acompanhados continuava com o vírus indetectável após 48 semanas, e cerca de um terço chegou a 72 semanas sem rebote. Os resultados ainda não representam uma cura, mas mostram que tratamentos periódicos podem prolongar o controle do HIV sem o uso diário de medicamentos.
Pesquisadores também estudam células geneticamente modificadas para produzir esses anticorpos continuamente. No futuro, a combinação entre edição genética, anticorpos e técnicas capazes de reduzir o reservatório viral poderá reproduzir parte do efeito protetor observado nos transplantes, mas sem depender de uma intervenção de altíssimo risco.
Esses casos representam um mapa biológico. Eles indicam que uma cura duradoura provavelmente precisará diminuir o reservatório do HIV, proteger as novas células e impedir que o vírus volte a se espalhar. Até que isso possa ser feito de forma segura e em larga escala, a terapia antirretroviral continua sendo o tratamento recomendado para controlar o HIV.


