EUA impõem novas tarifas de 25% ao Brasil e ampliam a lista de exceções
EUA impõem novas tarifas de 25% ao Brasil e ampliam a lista de exceções
Reuters
16/07/2026
Atualizada em 16/07/2026
Por Devika Madhusudhanan Nair e Shubham Kalia
16 Jul (Reuters) - Os EUA anunciaram a imposição de tarifas de 25% sobre muitas importações do Brasil, ao mesmo tempo em que divulgaram uma lista de exceções mais ampla do que o esperado, reacendendo uma guerra comercial que poderia envolver dezenas de países ao redor do mundo, à medida que o governo do presidente norte-americano, Donald Trump, reformula sua política tarifária, uma de suas principais ferramentas diplomáticas.
O anúncio feito na noite de quarta-feira pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) tornou o Brasil o primeiro país visado pela nova estratégia tarifária do governo Trump, que se baseia na Seção 301 da legislação comercial dos EUA — uma disposição que autoriza investigações sobre supostas práticas comerciais desleais — para justificar novas taxas sobre dezenas de países.
As novas tarifas, que devem entrar em vigor em 22 de julho, podem acabar afetando países desde a Índia e a China até a União Europeia, o Japão e a Coreia do Sul, à medida que Trump busca uma reestruturação comercial após a Suprema Corte dos EUA ter derrubado uma rodada anterior de tarifas globais.
O anúncio do USTR ocorre após meses de negociações infrutíferas e a mais de 30 reuniões entre autoridades norte-americanas e brasileiras, depois que o governo Trump propôs novas tarifas sobre muitas importações do Brasil em junho, alegando que as práticas do país eram desleais em uma série de questões, desde o comércio digital até o desmatamento ilegal.
“As extensas negociações com o Brasil ao longo do último ano não resolveram essas questões, mas continuamos abertos a prosseguir as negociações com o Brasil para promover as mudanças há muito necessárias em relação aos problemas identificados nesta investigação”, afirmou o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, em comunicado.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que deve concorrer à reeleição em outubro, disse que a decisão dos EUA não tem qualquer justificativa. Autoridades brasileiras há muito sugerem, em conversas privadas, que os motivos para as novas tarifas são políticos, e não técnicos, tornando as negociações infrutíferas.
O Brasil iniciará imediatamente os procedimentos para invocar os instrumentos previstos na Lei da Reciprocidade e revisará a questão no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC), afirmou o governo brasileiro em comunicado.
A Índia, um dos maiores parceiros comerciais dos EUA, tem enfrentado dificuldades para assinar um acordo comercial com Washington, pelo menos em parte devido às investigações da Seção 301.
“O caso do Brasil... é um alerta para a Índia”, disse Ajay Srivastava, fundador do think tank Global Trade Research Initiative. “Isso mostra que Washington pode usar medidas comerciais não apenas em relação a tarifas e acesso ao mercado, mas também contra qualquer política que considere injusta para as empresas americanas.”
RUBIO CRITICA LULA
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que foi acusado por Lula de ser anti-América Latina quando as tarifas dos EUA foram propostas em junho, culpou o presidente brasileiro e disse que “Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé”.
“No último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de um acordo em prol do bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço a pagar por isso”, disse Rubio em uma postagem contundente no X.
As tarifas contra o Brasil se aplicariam a milhares de importações, incluindo açúcar, maquinário agrícola, vestuário, maquinário elétrico, papel e aço.
Ainda assim, os EUA afirmaram que isentariam todos os produtos propostos para exceção no aviso de junho, exceto a polpa dissolúvel de alta pureza e as aplicações não farmacêuticas de certos produtos, e incluiriam centenas de outros que deveriam estar sujeitos a tarifas, como ferro-gusa e café solúvel.
As isenções de maior impacto incluem carne bovina, café, terras raras, produtos energéticos, aeronaves e peças de aeronaves.
A Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham), um grupo empresarial, informou que o anúncio de quarta-feira aumentou as isenções em 25%, abrangendo cerca de US$11 bilhões em comércio anual — US$2 bilhões a menos do que o esperado —, embora coloque “o Brasil entre os países que enfrentam as condições mais restritivas de acesso ao mercado dos EUA”.
A investigação sobre o Brasil, aberta em julho passado, citou várias supostas práticas desleais, incluindo o desmatamento ilegal e o sistema de pagamentos instantâneos do Brasil, o Pix, que, segundo o governo dos EUA, prejudica as empresas de cartão de crédito norte-americanas.
O Brasil rejeitou veementemente todas as alegações.
O Brasil também foi incluído em uma investigação separada nos termos da Seção 301 pelo USTR, com conclusão prevista para 24 de julho, sobre ligações com trabalho forçado nas cadeias de suprimentos de dezenas de países.
Espera-se que a investigação resulte em uma tarifa adicional de 12,5%, elevando a tarifa comercial total sobre os produtos brasileiros para 37,5%.
(Reportagem adicional de Shivangi Acharya, Rocky Swift, Akanksha Khushi, João Manuel Maurício e Lisandra Paraguassu)
Reuters

