EUA e Irã dão sinais de que acordo de paz está próximo; Teerã reivindica a vitória
EUA e Irã dão sinais de que acordo de paz está próximo; Teerã reivindica a vitória
Reuters
12/06/2026
Por Steve Holland e Parisa Hafezi e John Irish
WASHINGTON/DUBAI/PARIS, 12 Jun (Reuters) - Os Estados Unidos e o Irã deram a entender nesta sexta-feira que um acordo para pôr fim ao conflito entre os dois países está próximo, com uma autoridade de alto escalão do governo norte-americano afirmando que as duas partes haviam chegado a um consenso sobre o texto e que Washington espera assinar um acordo preliminar nos próximos dias.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, disse que ainda são possíveis alterações, mas que o acordo provisório mostrava que seu país havia saído mais forte do conflito.
“O Irã é o vencedor da guerra com os EUA”, disse ele na televisão estatal.
O memorando de entendimento colocado sobre a mesa prevê a reabertura do Estreito de Ormuz e o levantamento do bloqueio naval dos EUA aos portos iranianos, disseram fontes de todos os lados das negociações. As negociações sobre o programa nuclear do Irã -- justificativa declarada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, para iniciar a guerra-- devem ocorrer posteriormente.
A autoridade norte-americana disse a jornalistas, sob condição de anonimato, que o acordo atende aos objetivos centrais de Trump e coloca as negociações “em uma posição muito, muito boa”.
Relatos sobre a minuta da proposta, provenientes de fontes ocidentais, paquistanesas e iranianas, apontaram para termos que podem favorecer o Irã, atraindo críticas de Trump, que rejeitou as notícias como imprecisas.
Embora houvesse pequenas diferenças nos detalhes, as propostas, em linhas gerais, ofereceram a Teerã muito do que o país buscava, e Trump parece ter conseguido pouco além da reabertura do estreito, que o Irã fechou após os ataques dos EUA e de Israel em fevereiro.
Araqchi disse que o Irã, junto com Omã, deve manter o controle do tráfego pelo estreito, que antes da guerra movimentava um quinto do abastecimento mundial de petróleo e gás.
“Nossa espada sempre irá pairar sobre o Estreito de Ormuz”, disse ele.
Agências de notícias iranianas informaram no sábado (horário local) que explosões foram ouvidas ao longo do estreito no porto de Sirik e na ilha de Qeshm, no Irã, que moradores e autoridades locais atribuíram a tiros disparados pelas forças iranianas para alertar embarcações que tentavam atravessar a via navegável sem permissão da Marinha da Guarda Revolucionária.
O QUE HÁ NO ACORDO?
Os termos preliminares do acordo descritos à Reuters por várias fontes indicam que os EUA começariam a liberar bilhões de dólares em ativos iranianos congelados e suspenderiam as sanções sobre suas exportações de petróleo, em troca da abertura do estreito pelo Irã.
O programa nuclear do Irã seria discutido durante um período de 60 dias de negociações. A autoridade norte-americana disse que o acordo levaria, em última instância, ao desmantelamento do programa nuclear do Irã, com seu estoque de urânio altamente enriquecido a ser destruído e removido. Os termos também incluem um regime de inspeção para garantir o cumprimento a longo prazo.
Mas Araqchi disse à televisão estatal que o Irã, que segundo fontes não aceitou o desmantelamento de seu programa nuclear, queria reter o urânio em forma diluída. “Para Teerã, a única solução preferida para seu estoque de urânio altamente enriquecido é a diluição do material”, disse ele.
As propostas incluem a discussão de possíveis reparações de guerra para Teerã e o abandono das exigências de longa data dos EUA por limites ao programa de mísseis do Irã, disseram as fontes. A autoridade dos EUA contestou essa versão.
“Nenhum centavo será liberado até que cumpram o acordo. O Estreito de Ormuz será aberto. Não haverá financiamento iraniano a grupos terroristas”, disse a autoridade, que falou sob condição de anonimato. “Foi isso que eles concordaram. Este é um acordo baseado no cumprimento.”
ISRAEL NÃO FAZ PARTE DO MEMORANDO
Uma fonte ocidental disse que o acordo poderia ser assinado já no domingo pelo vice-presidente dos EUA, JD Vance, e pelo presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, sendo Genebra vista como o local mais provável.
Araqchi disse que o acordo seria assinado remotamente antes de ser anunciado.
Segundo a autoridade norte-americana, a Europa foi aventada como local para a assinatura, mas nenhuma decisão foi tomada.
Israel, que iniciou a guerra ao lado dos Estados Unidos, não participou das negociações. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse que seu país não deve fazer parte do acordo.
Netanyahu entrou em conflito com Trump nas últimas semanas devido às exigências dos EUA de que Israel restrinja as ações militares no Líbano para permitir que Washington chegue a um acordo com Teerã.
Araqchi disse que o acordo deve pôr fim à guerra no Líbano, o que implica numa retirada israelense das áreas ocupadas.
O ministro da Defesa de Israel disse que o país não deve se retirar. Uma autoridade de alto escalão israelense afirmou que Israel espera manter sua liberdade de agir contra ameaças nas áreas sob seu controle.
QUEDA NO PREÇO DO PETRÓLEO
O avanço em direção a um acordo surgiu no final de uma semana que trouxe uma forte escalada nas hostilidades no Golfo, incluindo trocas de tiros entre Israel e o Irã e ataques dos EUA a alvos iranianos, seguidos por retaliações contra bases norte-americanas.
As bolsas globais subiram e os preços do petróleo caíram com a notícia. Os preços do petróleo Brent caíram mais de 3%, atingindo o nível mais baixo em quase dois meses.
O conflito tornou-se uma dor de cabeça política para a Casa Branca, em meio ao aumento dos preços dos combustíveis e à queda nos índices de aprovação de Trump.
Alguns republicanos temem que a impopularidade da guerra possa custar-lhes o controle do Congresso nas eleições de meio de mandato, em novembro. Mas muitos dos pares republicanos de Trump podem ter dificuldade em endossar um acordo considerado favorável demais ao Irã.
Teerã sempre afirmou que seu programa nuclear é pacífico e aceitou restrições rigorosas em troca do levantamento das sanções, conforme um acordo de 2015 com o governo do então presidente dos EUA, Barack Obama.
Trump abandonou esse acordo durante seu primeiro mandato, em 2018, e o Irã respondeu intensificando o enriquecimento de urânio, produzindo mais de 400kg de material com pureza próxima à necessária para fabricar uma bomba.
(Reportagem das Redações da Reuters)
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