EXAMES DE SANGUE REVELAM ALTERAÇÕES LIGADAS A DOENÇAS INTESTINAIS ANOS ANTES DO DIAGNÓSTICO
Pesquisa identificou marcas no sistema imunológico que podem surgir até uma década antes da descoberta da doença de Crohn ou da colite ulcerativa
Bruna Valle
03/11/2026
O organismo pode apresentar mudanças relacionadas a uma doença muito antes de os primeiros sintomas aparecerem. É o que indica uma pesquisa sobre doenças inflamatórias intestinais, que identificou padrões específicos de anticorpos no sangue de pessoas que só receberiam o diagnóstico anos depois.
Os resultados sugerem que alterações na resposta imunológica podem ser detectadas até dez anos antes da identificação da doença de Crohn ou da colite ulcerativa. A descoberta pode abrir caminho para novas formas de reconhecer pessoas com maior risco e, no futuro, favorecer um acompanhamento médico mais precoce. No entanto, os pesquisadores ressaltam que ainda não existe um exame de rotina capaz de prever essas doenças com essa antecedência.

Pesquisadores investigam anticorpos que podem indicar alterações associadas a doenças intestinais
O que os pesquisadores encontraram?
O estudo analisou duas mil amostras de sangue coletadas de 500 pessoas. Entre os participantes, 200 desenvolveram doença de Crohn, outros 200 receberam diagnóstico de colite ulcerativa e 100 não apresentavam essas condições.
As amostras permitiram observar o sistema imunológico em diferentes momentos: na época do diagnóstico e aproximadamente dois, quatro e dez anos antes dele. Dessa forma, os cientistas conseguiram investigar se já existiam sinais biológicos associados às doenças antes de elas serem reconhecidas clinicamente.
A equipe examinou as respostas dos anticorpos a cerca de 357 mil estruturas relacionadas a bactérias, vírus, alimentos e componentes do próprio organismo. Os resultados revelaram padrões distintos entre as pessoas que posteriormente desenvolveram doenças inflamatórias intestinais e aquelas que permaneceram saudáveis.
Duas doenças, sinais diferentes
A doença de Crohn e a colite ulcerativa fazem parte do grupo das doenças inflamatórias intestinais. Ambas provocam inflamação persistente no sistema digestivo, mas podem atingir regiões diferentes e apresentar características próprias.
Na pesquisa, os participantes que desenvolveram doença de Crohn apresentaram respostas mais intensas a determinados vírus, incluindo os da família dos herpesvírus, e à flagelina, uma proteína encontrada em estruturas que permitem a algumas bactérias se movimentarem. Esses sinais foram especialmente evidentes entre pessoas que posteriormente tiveram formas mais complicadas da doença ou comprometimento do íleo, parte final do intestino delgado.
Já entre aqueles que desenvolveram colite ulcerativa, os pesquisadores observaram outra combinação de respostas imunológicas, incluindo alterações relacionadas a vírus e componentes do próprio organismo.
Essas diferenças são importantes porque indicam que as duas doenças podem deixar marcas biológicas próprias antes do diagnóstico. Ainda assim, os padrões identificados não significam que uma pessoa com determinada resposta imunológica necessariamente desenvolverá uma dessas condições.
Inteligência artificial ajudou a identificar os padrões
Para interpretar o grande volume de informações, os pesquisadores utilizaram modelos de aprendizado de máquina, uma área da inteligência artificial capaz de reconhecer padrões em conjuntos complexos de dados.
Com base nas amostras coletadas antes do diagnóstico, os modelos conseguiram distinguir pessoas que posteriormente desenvolveram doença de Crohn de participantes saudáveis. O desempenho foi promissor também na identificação de casos futuros de colite ulcerativa.
A equipe ainda encontrou sinais que ajudaram a diferenciar pessoas que desenvolveriam formas mais complicadas da doença de Crohn daquelas que teriam quadros menos complexos.
Esses resultados apontam para uma possível aplicação futura: combinar informações sobre anticorpos com outros dados clínicos para estimar riscos e ajudar a orientar o acompanhamento dos pacientes. Porém, o desempenho observado nas amostras estudadas não garante que o mesmo resultado será obtido em toda a população.
Antes de chegar à prática clínica, o método precisa ser avaliado em grupos maiores e mais diversos, acompanhados ao longo do tempo. Os cientistas também precisam verificar se a análise dos anticorpos acrescenta informações relevantes aos exames e indicadores de risco já existentes.
Por que a descoberta importa?
As doenças inflamatórias intestinais podem afetar a qualidade de vida e exigir acompanhamento contínuo. Reconhecer os processos biológicos que antecedem o diagnóstico pode ajudar os cientistas a compreender melhor como essas condições se desenvolvem e, eventualmente, identificar oportunidades para intervenções mais precoces.


