INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL USA FOTOS DO ROSTO PARA ESTIMAR RISCOS EM PACIENTES COM CÂNCER
Sistema desenvolvido por pesquisadores estima a idade biológica e identifica sinais associados à sobrevida, mas ainda precisa de estudos adicionais antes de ser usado na rotina médica
Bruna Valle
21/10/2026
Uma fotografia comum pode revelar informações sobre a saúde que não são facilmente percebidas a olho nu? Pesquisadores do Mass General Brigham, nos Estados Unidos, investigaram essa possibilidade ao desenvolver ferramentas de inteligência artificial capazes de analisar imagens do rosto e identificar sinais relacionados ao envelhecimento biológico e à sobrevida de pessoas com câncer. O estudo foi publicado na revista científica The Lancet Digital Health.
A proposta não é descobrir a doença por meio de uma selfie, mas investigar se características faciais podem acrescentar informações à avaliação clínica. No futuro, esse tipo de análise poderá ajudar médicos a compreender melhor as condições físicas dos pacientes antes de recomendar tratamentos mais intensivos.
Duas ferramentas analisam sinais diferentes
O trabalho apresenta um modelo de inteligência artificial treinado com mais de 40 milhões de imagens faciais. A partir dele, os pesquisadores desenvolveram duas ferramentas complementares, cada uma voltada a um tipo de avaliação.
A primeira, chamada FAHR-FaceAge, estima a idade biológica: uma medida relacionada às condições do organismo, que nem sempre correspondem à idade indicada pela data de nascimento. A segunda, FAHR-FaceSurvival, foi desenvolvida para estimar diretamente o risco de mortalidade de pacientes com câncer a partir de fotografias.
Embora tenham sido criadas com a mesma base tecnológica, as ferramentas analisam regiões diferentes do rosto. Para estimar a idade biológica, o sistema considera áreas como a testa, as têmporas e os sulcos ao redor do nariz e da boca. Já o modelo voltado à sobrevida dá maior atenção à região abaixo dos olhos e à área próxima à parte superior do nariz.

Pesquisadores desenvolveram modelos de I.A que analisam diferentes regiões do rosto
O que os pesquisadores observaram
Em análises com pacientes oncológicos tratados com radioterapia nos Estados Unidos, aqueles cuja idade biológica estimada era pelo menos cinco anos superior à idade real apresentaram risco de morte 21% maior durante um acompanhamento médio de quatro anos, em comparação com os demais pacientes do grupo. Já quem aparentava ter uma idade biológica pelo menos cinco anos inferior apresentou risco 17% menor.
Esses resultados mostram uma associação estatística, não uma previsão individual definitiva. A estimativa produzida pelo sistema não determina o que acontecerá com uma pessoa específica e não substitui informações clínicas, exames ou a avaliação da equipe médica.
Por que o rosto pode conter informações sobre a saúde?
O mecanismo exato ainda não está esclarecido. Uma das hipóteses é que características faciais reflitam mudanças físicas relacionadas ao envelhecimento, à perda de massa muscular ou à fragilidade do organismo. Esses fatores podem ter relação com a capacidade de uma pessoa tolerar determinados tratamentos.
Os pesquisadores também observaram associações entre hábitos como tabagismo e consumo elevado de álcool e drogas e estimativas de idade biológica mais avançada. Isso não significa que uma fotografia consiga identificar, com precisão, as causas dessas alterações. O modelo reconhece padrões nos dados, mas ainda é necessário compreender melhor quais características físicas estão por trás dos resultados.
Uma possível ferramenta de apoio, não um diagnóstico
Apesar dos resultados, a tecnologia ainda precisa passar por avaliações adicionais antes de ser incorporada à prática clínica. Entre os desafios estão verificar seu desempenho em populações mais diversas, investigar possíveis vieses e demonstrar se a análise facial realmente acrescenta informações relevantes às avaliações já realizadas pelos médicos.
Também será necessário comprovar se o uso dessas estimativas melhora as decisões de tratamento e os cuidados oferecidos aos pacientes. Identificar uma associação entre uma imagem e um desfecho clínico é diferente de demonstrar que a ferramenta consegue melhorar os resultados da assistência médica.
Por enquanto, portanto, a pesquisa representa uma nova possibilidade de investigação, e não um recurso disponível para prever o destino de quem tem câncer. O avanço está em explorar se uma imagem simples, obtida com uma câmera comum, pode fornecer informações complementares sobre a condição física de uma pessoa.
Se os próximos estudos confirmarem sua utilidade e segurança, a tecnologia poderá contribuir para avaliações médicas mais individualizadas. Até lá, a fotografia permanece como objeto de pesquisa, e não como resposta definitiva sobre a saúde ou a sobrevida de alguém.


