Rússia perde aliado na Venezuela, mas espera se beneficiar com política de 'faroeste' de Trump
Rússia perde aliado na Venezuela, mas espera se beneficiar com política de 'faroeste' de Trump
Reuters
05/01/2026
Por Guy Faulconbridge
MOSCOU, 5 Jan (Reuters) - A captura do líder da Venezuela, Nicolás Maduro, pelos Estados Unidos privou o presidente da Rússia, Vladimir Putin, de um aliado e pode aumentar a 'influência do petróleo' dos EUA, mas Moscou está de olho em possíveis benefícios com a divisão do mundo em esferas de influência pelo presidente norte-americano, Donald Trump.
As forças especiais dos EUA prenderam Maduro apenas oito meses depois que o presidente russo firmou uma parceria estratégica com seu 'querido amigo', e Trump disse que os EUA estão assumindo o controle temporário da Venezuela, que tem as maiores reservas de petróleo do mundo.
Alguns nacionalistas russos criticaram a perda de um aliado e contrastaram a rápida operação dos EUA com o fracasso da Rússia em assumir o controle da Ucrânia em quase quatro anos de guerra.
Mas, em outro nível, o que a Rússia considera como 'pirataria' e 'mudança de regime' de Trump no 'quintal' dos Estados Unidos é mais tolerável para Moscou, especialmente se Washington ficar atolado na Venezuela.
'A Rússia perdeu um aliado na América Latina', disse uma fonte russa graduada, falando sob condição de anonimato devido à sensibilidade da situação.
'Mas se esse for um exemplo da Doutrina Monroe de Trump em ação, como parece ser, então a Rússia também tem sua própria esfera de influência.'
A fonte estava se referindo ao desejo do governo Trump de reafirmar o domínio dos EUA no Hemisfério Ocidental e reviver a Doutrina Monroe do Século 19, que declarou a área como zona de influência de Washington.
Uma segunda fonte russa disse que Moscou viu a operação dos EUA como uma tentativa clara de obter o controle da riqueza petrolífera da Venezuela e observou que a maioria das potências ocidentais não a criticou abertamente.
PERIGOS DO 'FAROESTE' DE TRUMP
Putin tem tentado estabelecer uma esfera de influência russa nas ex-Repúblicas soviéticas da Ásia Central, no Cáucaso e na Ucrânia, em uma investida contra a qual Washington se opõe desde o fim da Guerra Fria.
Putin não comentou publicamente sobre a operação dos Estados Unidos na Venezuela, embora o Ministério das Relações Exteriores da Rússia tenha pedido a Trump que liberte Maduro e tenha apelado para o diálogo. O ministério anteriormente classificou as ações de Trump como pirataria moderna no Caribe.
A mídia estatal russa descreveu a operação como um 'sequestro' dos EUA, relatou comentários de Trump sobre os EUA terem vizinhos 'doentes' e fez referência à captura do líder militar Manuel Noriega pelos EUA no Panamá em 3 de janeiro de 1990.
'O fato de Trump ter simplesmente 'roubado' o presidente de outro país mostra que basicamente não existe lei internacional -- existe apenas a lei da força --, mas a Rússia sabe disso há muito tempo', disse Sergei Markov, ex-conselheiro do Kremlin, à Reuters.
Ele disse que a Doutrina Monroe moderna -- que Trump sugeriu que poderia ser atualizada como a 'Doutrina Donroe' - poderia ser interpretada de diferentes maneiras.
'Os Estados Unidos estão realmente prontos para reconhecer o domínio da Rússia sobre a antiga União Soviética, ou simplesmente os Estados Unidos são tão fortes que não tolerarão nenhuma grande potência nem mesmo perto deles?'
Alexei Pushkov, que preside a comissão de política de informação no Conselho da Federação, ou Senado, da Rússia, viu a operação dos EUA na Venezuela como uma implementação direta da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, descrevendo-a como uma tentativa de reviver a supremacia dos EUA e ganhar controle sobre mais reservas de petróleo.
No entanto, ele disse que isso arrisca um retorno ao 'imperialismo selvagem do Século 19 e, de facto, reviver o conceito do faroeste - no sentido de que os Estados Unidos recuperaram o direito de fazer o que quiserem no Hemisfério Ocidental'.
'Será que o triunfo se transformará em um desastre?', perguntou ele.
Reuters

