TRATAMENTO PERSONALIZADO REDUZ RISCO DE RETORNO DO MELANOMA EM ESTUDO CLÍNICO
Teste mostrou melhores resultados quando uma vacina de RNA mensageiro foi combinada à imunoterapia. A abordagem ainda não foi aprovada para uso amplo
Bruna Valle
26/10/2026
Uma estratégia que combina uma vacina feita sob medida para cada paciente e um medicamento de imunoterapia apresentou resultados promissores no tratamento do melanoma, um dos tipos mais agressivos de câncer de pele. Em um estudo clínico internacional com 1.137 participantes, a combinação reduziu em 42% o risco de retorno da doença ou morte, em comparação com o uso isolado da imunoterapia.
O tratamento experimental foi desenvolvido pela farmacêutica Moderna em parceria com a Merck, conhecida como MSD em alguns países. A vacina, chamada intismeran autogene, utiliza a tecnologia de RNA mensageiro para orientar o sistema imunológico a reconhecer características específicas do tumor de cada paciente.
Os resultados estão relacionados ao acompanhamento dos participantes nos primeiros dois anos após o tratamento. Apesar dos avanços, a vacina ainda depende da avaliação das autoridades regulatórias e não está aprovada para uso clínico generalizado.

Vacina experimental é desenvolvida de acordo com as características genéticas do tumor de cada paciente
Como funciona a vacina personalizada?
Diferentemente das vacinas tradicionais, usadas para prevenir determinadas infecções, essa abordagem busca ajudar o organismo a combater células cancerígenas que possam permanecer após a retirada do tumor.
Para desenvolver o tratamento, os pesquisadores analisam o material genético do melanoma removido durante a cirurgia. A partir dessas informações, identificam mutações características do tumor e selecionam alvos que possam ser reconhecidos pelo sistema imunológico.
A vacina utiliza o RNA mensageiro, tecnologia que ganhou notoriedade durante a pandemia de Covid-19. Nesse caso, porém, a finalidade é diferente: as instruções genéticas presentes na formulação ajudam as células do organismo a produzir fragmentos relacionados às alterações encontradas no câncer.
Esses fragmentos, chamados neoantígenos, funcionam como sinais que ajudam o sistema imunológico a identificar as células tumorais. A intenção é estimular uma resposta direcionada contra possíveis células cancerígenas remanescentes e diminuir a chance de a doença reaparecer.
Como as mutações variam de um tumor para outro, a formulação é individualizada. Isso significa que a vacina não é exatamente igual para todos os pacientes, mas preparada com base nas características de cada caso.
O que mostrou o estudo com mais de mil pacientes?
O ensaio clínico de fase 3, chamado INTerpath-001, incluiu 1.137 pessoas com melanoma de alto risco que haviam passado por cirurgia para a retirada completa do tumor. Os participantes foram divididos em grupos para comparar os resultados da imunoterapia isolada com os da combinação entre imunoterapia e vacina personalizada.
O medicamento utilizado nos dois grupos foi o pembrolizumabe, comercializado como Keytruda, que atua ajudando o sistema imunológico a reconhecer e atacar as células cancerígenas.
Após dois anos, 82,2% dos pacientes que receberam a vacina junto com o Keytruda permaneciam sem recorrência da doença. No grupo tratado apenas com o medicamento, o índice foi de aproximadamente 70%.
A análise também apontou uma redução de 38% no risco de metástase à distância ou morte entre os pacientes que receberam a combinação. Metástase é quando o câncer se espalha do local de origem para outras partes do corpo.
Os percentuais representam uma redução do risco relativo, e não uma garantia individual de que o câncer não voltará. Os resultados são considerados relevantes porque apontam um benefício adicional em relação a uma terapia já utilizada no tratamento de pacientes com melanoma de alto risco.
O acompanhamento dos participantes continuará para avaliar se os efeitos positivos se mantêm por mais tempo e se a combinação também influencia a sobrevida geral.
Por que a imunoterapia é combinada à vacina?
A vacina personalizada e o pembrolizumabe atuam de maneiras diferentes, mas complementares.
A vacina procura ensinar o sistema imunológico a reconhecer alterações específicas do tumor. Já o pembrolizumabe bloqueia uma via que algumas células cancerígenas utilizam para enfraquecer a resposta de defesa do organismo. Com isso, as células de defesa podem ter melhores condições de atacar o câncer.
A associação das duas estratégias busca unir o reconhecimento direcionado das células tumorais à manutenção de uma resposta imunológica mais ativa.
O tratamento estudado é chamado de terapia adjuvante, pois é administrado após a cirurgia, com o objetivo de reduzir o risco de a doença voltar. No ensaio clínico, a vacina foi aplicada em até nove doses, com intervalos de três semanas, enquanto o tratamento com pembrolizumabe seguia o protocolo previsto para o estudo.
Os pesquisadores consideram que a personalização pode ser uma vantagem porque os tumores apresentam combinações diferentes de mutações. No entanto, ainda é necessário acompanhar os pacientes por mais tempo para compreender a duração do benefício e identificar quais perfis podem responder melhor à abordagem.
Quais são os próximos passos?
Com os resultados positivos da fase 3, Moderna e Merck informaram que estão em contato com as autoridades regulatórias para discutir os próximos passos do processo de avaliação. A apresentação dos dados detalhados está prevista para um congresso internacional de oncologia em Madri, na Espanha.
A divulgação dos resultados de um estudo clínico não significa, por si só, que um tratamento já possa ser prescrito. Antes de chegar aos pacientes de forma ampla, a combinação precisa passar pelas etapas de avaliação de eficácia, segurança, fabricação e autorização exigidas pelos órgãos reguladores.
Até o momento, os dados apresentados dizem respeito principalmente ao risco de recorrência e de disseminação do melanoma. Os resultados de sobrevida geral ainda precisam de acompanhamento adicional.
A tecnologia também está sendo investigada em estudos relacionados a outros tipos de câncer, mas os resultados observados no melanoma não podem ser automaticamente aplicados a outras doenças.


