Capa do Álbum: Antena 1
A Rádio Online mais ouvida do Brasil
Antena 1

COMBINAÇÃO DE DOIS MEDICAMENTOS PODE ABRIR CAMINHO PARA PREVENÇÃO DE PARTOS PREMATUROS

Pesquisa identificou resultados promissores ao investigar como controlar a resposta imunológica durante a gravidez

Bruna Valle

23/10/2026

Placeholder - loading - Estudo identifica combinação de medicamentos que pode ajudar a prevenir partos prematuros
Estudo identifica combinação de medicamentos que pode ajudar a prevenir partos prematuros

A inteligência artificial está abrindo novas possibilidades para estudar problemas de saúde que ainda representam grandes desafios para a medicina. Uma pesquisa conduzida pela Universidade Stanford, nos Estados Unidos, utilizou um modelo digital do sistema imunológico para investigar medicamentos que possam ajudar a reduzir o risco de parto prematuro.

A ferramenta analisou informações de aproximadamente 250 milhões de células imunológicas e simulou como diferentes medicamentos poderiam alterar as respostas do organismo durante a gestação. Com essa abordagem, os pesquisadores identificaram uma combinação de dois medicamentos já conhecidos que apresentou resultados promissores nas simulações: aspirina em baixa dose e lansoprazol, utilizado principalmente no tratamento do refluxo ácido.

Publicado na revista científica Science Advances, o estudo representa uma nova etapa na busca por estratégias para evitar o nascimento antes do tempo esperado. Os resultados, porém, ainda não comprovam que a combinação seja eficaz e segura para prevenir partos prematuros em gestantes. A proposta agora é avançar para testes clínicos em seres humanos.

Um sistema imunológico reproduzido no computador

Durante a gravidez, o sistema imunológico passa por mudanças importantes. O organismo precisa adaptar suas respostas para permitir o desenvolvimento do bebê e, ao mesmo tempo, manter a proteção contra ameaças à saúde.

Ao longo da gestação, diferentes sinais imunológicos ajudam a preparar o corpo para o parto. Quando determinados processos inflamatórios acontecem antes do momento adequado, eles podem contribuir para o início antecipado do trabalho de parto.

Para investigar esse mecanismo, os cientistas de Stanford desenvolveram um modelo chamado SIMCO, sigla em inglês para Simulated Immune Modeling of Clinical Outcomes. A ferramenta funciona como um tipo de gêmeo digital: uma representação computacional de um sistema biológico que permite simular como ele pode reagir a diferentes situações.

O modelo foi construído a partir de dados experimentais sobre o comportamento de células imunológicas expostas a medicamentos. Os pesquisadores também incorporaram informações de 63 gestações, relacionando os padrões observados no sistema imunológico aos resultados clínicos registrados.

Como a inteligência artificial ajudou a encontrar uma combinação promissora

Depois de desenvolver e avaliar o modelo, a equipe utilizou a ferramenta para comparar nove esquemas de tratamento considerados candidatos à investigação. O objetivo era identificar quais deles poderiam modificar os processos imunológicos associados ao início do trabalho de parto.

Entre as opções analisadas, a combinação de aspirina em baixa dose com lansoprazol apresentou um resultado que chamou a atenção dos pesquisadores.

Nas simulações, o efeito previsto da associação sobre o adiamento do trabalho de parto foi cerca de 15 vezes maior do que o observado com a aspirina utilizada isoladamente.

O resultado sugere que os dois medicamentos podem atuar de maneira complementar sobre determinados mecanismos do sistema imunológico. Segundo a interpretação dos pesquisadores, a combinação favoreceria sinais celulares associados à manutenção da gestação e reduziria a atividade de outros processos relacionados ao início do parto.

A ferramenta também identificou outras substâncias que merecem investigação, incluindo o ácido fólico, uma vitamina já recomendada durante a gravidez para reduzir o risco de defeitos no desenvolvimento do tubo neural do bebê.

Esses resultados ajudam a selecionar possibilidades para novas pesquisas, mas é importante destacar que as diferenças observadas pelo computador são previsões baseadas nos dados disponíveis. Elas não representam uma demonstração de que os medicamentos produzirão o mesmo efeito em todas as gestantes.

Com essa base, o programa consegue estimar como determinadas intervenções poderiam modificar a atividade das células e influenciar o momento em que o trabalho de parto começaria.

Pesquisadores utilizaram modelo digital do sistema imunológico para investigar estratégias contra o parto prematuro

Por que investigar medicamentos que já existem?

Uma das estratégias utilizadas no estudo foi a chamada reutilização de medicamentos, que consiste em investigar se substâncias conhecidas podem ter outras aplicações médicas além daquelas para as quais são utilizadas atualmente.

Essa abordagem pode facilitar a busca por novas opções terapêuticas, porque parte do conhecimento sobre as propriedades dos medicamentos já está disponível. Ainda assim, descobrir uma possível nova função não elimina a necessidade de avaliar os riscos, as doses adequadas e as condições em que cada substância poderia ser utilizada.

No caso da aspirina, pesquisas anteriores já haviam identificado benefícios modestos na redução de alguns riscos relacionados à gestação, quando utilizada em baixa dose e com indicação médica. O lansoprazol, por sua vez, é empregado para tratar problemas relacionados à produção de ácido no estômago e também apresenta propriedades que podem influenciar processos inflamatórios.

A hipótese investigada em Stanford é que a associação entre os dois medicamentos possa produzir um efeito imunológico mais expressivo do que o uso isolado da aspirina.

Antes que essa possibilidade possa ser transformada em uma recomendação médica, entretanto, será necessário determinar se o benefício previsto se confirma em gestantes e se não há aumento de riscos para a mãe ou para o bebê.

Os resultados também foram investigados em animais

Além das simulações computacionais, os pesquisadores avaliaram a combinação de medicamentos em um modelo animal de inflamação durante a gestação.

Nesse experimento, a associação apresentou resultados favoráveis ao retardar o início do trabalho de parto naquele contexto específico. A observação acrescentou uma etapa experimental à investigação e ajudou a sustentar a decisão de avançar para estudos clínicos.

Ainda assim, resultados obtidos em animais não garantem que a mesma resposta ocorrerá em seres humanos. As diferenças biológicas entre as espécies exigem avaliações adicionais antes de qualquer conclusão sobre a eficácia do tratamento em gestantes.

A equipe recebeu autorização da agência reguladora norte-americana, a FDA, para investigar a combinação em um ensaio clínico com seres humanos. Essa autorização permite avançar na avaliação da proposta, mas não significa que o tratamento tenha sido aprovado para prevenir partos prematuros.

Por que prevenir o parto prematuro é tão importante?

O parto prematuro acontece quando o bebê nasce antes de completar 37 semanas de gestação. Dependendo de quão cedo ocorre o nascimento, podem existir maiores riscos de complicações respiratórias, dificuldades para se alimentar, problemas de desenvolvimento e necessidade de cuidados intensivos.

A prematuridade está entre as principais causas de morte de crianças menores de cinco anos no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. Por isso, encontrar maneiras seguras e eficazes de reduzir sua ocorrência é uma prioridade para a pesquisa médica.

As causas do parto prematuro são variadas e podem envolver infecções, alterações na placenta, condições maternas e outros fatores. Isso significa que uma única estratégia dificilmente será adequada para todas as situações.

O modelo desenvolvido em Stanford procura contribuir justamente para uma compreensão mais detalhada dos mecanismos envolvidos, permitindo investigar como diferentes pessoas podem responder a determinados medicamentos e quais intervenções merecem ser estudadas primeiro.

Compartilhar matéria

Mais lidas da semana

 

Carregando, aguarde...