Ibovespa fecha em queda de quase 14% após reeleição de Lula acionar 'circuit breaker'
Ibovespa fecha em queda de quase 14% após reeleição de Lula acionar 'circuit breaker'
Reuters
26/10/2026
Atualizada em 26/10/2026
Por Paula Arend Laier
SÃO PAULO, 26 Out (Reuters) - O Ibovespa fechou com a maior queda desde 2020 nesta segunda-feira, marcada por 'circuit breaker' na bolsa paulista, em meio a uma forte reprecificação das ações brasileiras após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conquistar a reeleição no domingo.
Investidores vinham se posicionado para uma vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da disputa, principalmente após ele liderar a primeira etapa da disputa, vislumbrando um governo mais favorável ao mercado e melhora do cenário fiscal. Mas, no domingo, Lula venceu Flávio por 51,79% a 48,21% dos votos válidos, uma diferença de 4,4 milhões de votos, frustrando tais expectativas e desencadeando uma forte correção no mercado financeiro brasileiro como um todo.
Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa despencou 13,88%, a 176.608,23 pontos, maior perda percentual em um dia desde 16 março de 2020 (-13,92%), período marcado pela pandemia de Covid. No pior momento do dia, o Ibovespa apurou queda de mais de 17%, a 169.516,43 pontos.
O índice Small Caps tombou 26,92%, para 2.036,13 pontos, maior queda em um dia da sua série histórica, iniciada em 2005.
O volume financeiro no pregão totalizou quase R$114,9 bilhões, bem acima de uma média diária já alta no mês, de cerca de R$57,5 bilhões e perto do recorde registrado em abril desse ano, quando atingiu R$120 bilhões, inflado naquela sessão pelo vencimento de opções sobre o Ibovespa.
FREIOS ACIONADOS
A B3 acionou o 'circuit breaker' na abertura, suspendendo por 30 minutos a negociação de ativos à vista, renda fixa privada e opções referenciadas em ações, BDR, Ibovespa, Ibovespa B3 BR+, IBrX-50, Índice Small Cap e ETFs. A B3 afirmou que decisão de acionar o mecanismo baseou-se na análise do cenário de formação do preço teórico do Ibovespa, que indicava queda superior a 20%.
O 'circuit breaker' não era acionado na bolsa desde março de 2020.
'O mercado embutiu nos seus preços uma expectativa diferente no primeiro turno do que efetivamente se concretizou no segundo turno e como esse resultado foi diametralmente diferente das expectativas há esse ajuste forte', afirmou a investidora Louise Barsi, cofundadora do Grupo AGF (Ações Garantem o Futuro).
'O momento é de cautela, mas não é nem 8 nem 80, não acho que é para zerar o caixa, mas também não acho que é para deixar algumas oportunidades passarem, principalmente nomes de qualidade', afirmou, lembrando que políticos passam, mas as boas empresas ficam e as oportunidades surgem justamente nesses momentos de grande instabilidade e incerteza.
Olhando para frente, Louise citou que não dá para cravar que esse foi o único ajuste e citou que há um cenário desafiador para 2027, com baixo crescimento econômico, risco persistente de pressão inflacionária e juros ainda em níveis elevados. 'Vamos ver se o governo vai fazer algum aceno ao mercado para tentar acalmar os ânimos', disse a investidora, que é filha de Luiz Barsi Filho, um dos maiores investidores individuais da bolsa brasileira.
ACENO
Ainda nesta segunda-feira, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou ao Estadão que o governo apresentará uma proposta para que possa perseguir o centro da meta fiscal ao longo do ano, e não mais o piso da margem de tolerância.
Na visão de agentes financeiros, houve um aumento das incertezas sobre as perspectivas fiscais do país e a direção dos preços dos ativos brasileiros agora dependerá das sinalizações sobre a política econômica do novo mandato. As atenções estão voltadas para a decisão sobre quem comandará o Ministério da Fazenda, bem como uma definição mais precisa da estratégia de consolidação fiscal para os próximos quatro anos.
O Goldman Sachs espera, 'no máximo, medidas modestas para conter o crescimento dos gastos primários, acompanhadas por novos aumentos de uma carga tributária que já é elevada. 'O governo provavelmente manterá sua forte convicção de que o setor público e as estatais devem continuar desempenhando papel central como motores do crescimento econômico e do investimento', acrescentou em relatório a clientes.
Para o Morgan Stanley, há, de modo geral, um risco relevante de queda para as ações brasileiras antes do fim do ano, especialmente para empresas mais expostas ao mercado doméstico. 'Apesar de acreditar que a reação inicial dos mercados deve ser uma forte redução de exposição ao risco, o desafio subjacente é muito mais profundo, refletindo desequilíbrios macroeconômicos estruturais que se tornam cada vez mais difíceis de reverter.'
O Scotiabank também destacou que o fato de Flávio se recusar a reconhecer a derrota e entrar com uma contestação judicial do resultado deve manter a incerteza política elevada, mantendo sob pressão as ações brasileiras. 'Continuamos otimistas em relação ao Brasil, mas pode ser necessário ter mais paciência', afirmou.
DESTAQUES
(Edição Alberto Alerigi Jr.)
Reuters

