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Incêndio na França obriga milhares a fugir; alto risco de incêndio persiste em Europa cada vez mais quente

Incêndio na França obriga milhares a fugir; alto risco de incêndio persiste em Europa cada vez mais quente

Reuters

23/07/2026

Placeholder - loading - Incêndio florestal no departamento de Gironda, na França 22 de julho de 2026 REUTERS/Stephane Mahe
Incêndio florestal no departamento de Gironda, na França 22 de julho de 2026 REUTERS/Stephane Mahe

Atualizada em  23/07/2026

Por Stephane Mahe

LEGE-CAP FERRET, França, 23 Jul (Reuters) - Um incêndio florestal que avança rapidamente forçou mais de ​10 mil pessoas a abandonarem suas casas e os campings de turismo onde estavam hospedados próximos à costa atlântica da França, enquanto o calor extremo e a seca cada vez mais severa alimentavam incêndios por toda a Europa e cientistas alertavam que as mudanças climáticas estão agravando a escassez de água no continente.

Em toda a Europa, três ondas de calor consecutivas nesta temporada intensificaram a seca, sobrecarregaram o abastecimento de água e deixaram a vegetação extremamente seca, contribuindo para que os incêndios florestais já tenham queimado mais terras neste ano do que a média anual das últimas duas décadas no continente que mais rapidamente se aquece no mundo. A situação também foi responsável por milhares de mortes.

Mais de 10.000 pessoas foram retiradas durante a madrugada no sudoeste da França, enquanto um incêndio florestal que se espalhava rapidamente devastou pelo menos 2.400 hectares de terra a oeste da cidade de Bordeaux, informaram autoridades nesta quinta-feira.

Quinhentos bombeiros estão lutando para controlar o incêndio, informou a prefeitura, acrescentando que ninguém ficou ferido até o momento.

O incêndio está localizado próximo à área da Baía de Arcachon, um ponto turístico muito procurado, e muitos dos retirados são visitantes hospedados em campings. “Durante a noite, o fogo se espalhou mais rapidamente do que imaginávamos”, disse ⁠Philippe de Gonneville, prefeito de Lège-Cap Ferret.

Na ⁠vizinha Espanha, as autoridades ainda trabalhavam para extinguir incêndios que já duravam ​vários dias, enquanto na ‌Itália, um bombeiro de 59 anos morreu após passar mal enquanto combatia um grande incêndio florestal perto de San Cataldo, na Sicília.

CÉU FICOU “VERMELHO. PRETO E VERMELHO”.

A península de Cap Ferret, frequentemente comparada aos luxuosos Hamptons, nos Estados Unidos, abriga algumas das propriedades mais caras da França, para onde parisienses e bordelenses abastados vão para saborear vinho branco e se deliciar com ostras.

Lège é a única das 11 vilas da península que está atualmente ameaçada pelo incêndio, mas Gonneville disse que as autoridades retiraram 5.200 pessoas durante a noite. Ele afirmou que o acesso está completamente ⁠bloqueado e que há planos de contingência em vigor para esvaziar toda a península tanto por terra quanto por mar, se necessário.

O incêndio já ​havia chegado aos limites de Lège, forçando a retirada de vários campings e bairros próximos à floresta.

“Nos mudamos para cá há dois anos e meio porque é um lugar encantador, e ​não sabemos o que vamos encontrar quando voltarmos”, disse Jeanine Clarke, de 46 anos, retirada para um centro de ‌acolhimento próximo com sua família e seu cachorro.

A campista ​Elizabeth Carron ⁠contou que estava jantando quando avistou as chamas. “O céu ficou vermelho. Preto e vermelho. Então, aos poucos, começamos a sentir o cheiro. Havia cinzas no carro, no trailer, na barraquinha dos meus netos. Duas horas depois, nos aconselharam a ir embora.”

Os incêndios florestais continuaram a ser um grande desafio em toda a Espanha nesta quinta-feira, com as autoridades combatendo vários incêndios de grande magnitude.

A ADIF, operadora da infraestrutura ferroviária da Espanha, ​informou que o tráfego ferroviário entre Mejorada del Campo e Alcalá de Henares, perto de Madri, havia sido suspenso devido a um incêndio florestal próximo aos trilhos. A interrupção afetou os serviços na linha ferroviária de alta velocidade que liga Madri a Barcelona, um dos corredores de transporte mais movimentados do país.

Em toda a região central da Espanha, bombeiros, equipes de emergência e unidades militares permaneceram mobilizados enquanto as autoridades monitoravam vários incêndios ativos, incluindo fogos em Guadalajara, Toledo, Ciudad Real e Albacete. Mais de 100 mil hectares foram queimados em todo o país até agora neste ano.

Mais de 10.000 mortes a mais foram registradas ​na Europa e no Reino Unido nas duas últimas ondas de calor recordes, em maio e no final de junho, com cientistas afirmando que a única razão plausível para esse número excepcionalmente alto de vítimas está relacionada ao calor. A Bélgica informou nesta quinta-feira que o dia 27 de junho — durante a onda de calor do mês passado — foi o segundo dia mais mortal do país no Século 21, com 650 mortes.

A Europa está sofrendo o impacto de um clima que se aquece rapidamente, com temperaturas subindo mais do que o dobro da média global. O Reuters Climate Monitor, uma ferramenta interativa que acompanha os padrões climáticos, mostrou que a temperatura máxima média na Europa Ocidental deve ser de 26,5 graus Celsius nesta quinta-feira, o que representa 2,9°C acima da temperatura máxima normal para 23 de julho no período de 1961 a 1990.

SECA ESTÁ ESGOTANDO OS RECURSOS HÍDRICOS

Vários países europeus estão sofrendo com a seca neste verão. A França teme ter sua menor safra de milho em 50 anos; a Romênia ​restringiu o acesso dos agricultores à água para irrigação, enquanto a Holanda declarou escassez hídrica. Proibições ao uso de mangueiras foram introduzidas em Londres, e sete ilhas gregas declararam estado de emergência para preservar a água.

Em ‌um relatório divulgado nesta quinta-feira, cientistas afirmaram que as descobertas indicam que as mudanças ⁠climáticas estão alterando a forma como as secas se formam na Europa. A análise, realizada pelo grupo de cientistas climáticos World Weather Attribution, apontou que o calor extremo está acelerando a evaporação da água do solo.

Mas os desafios também estão levando as pessoas a pensar fora da caixa. Na região da Galícia, no noroeste da Espanha, as comunidades reintroduziram gado nativo para reequilibrar os ecossistemas e ⁠reduzir os incêndios florestais em uma área que foi o epicentro do pior ano de incêndios do país em 2025. Uma espécie ⁠específica de gado, a ágil Cachena — conhecida localmente como “vaca-cabra” —, foi agora empregada para devorar a vegetação rasteira, ⁠um verdadeiro barril de pólvora para incêndios.

(Reportagem ⁠de ​Stephane Mahé , Zhifan Liu, Dominique Vidalon, Gabriel Stargardter, Ingrid Melander, Ardee Napolitano e Charlotte van Campenhout, na França; Kate Abnett, em Bruxelas; Emma Pinedo, Victoria Waldersee e Miguel Vidal, na Espanha, e Alvise Armellini, na Itália)

Reuters

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