PROTEÍNA PODE AJUDAR A PROTEGER O CÉREBRO DURANTE A RECUPERAÇÃO DE CIRURGIAS
Pesquisa identifica uma proteína ligada à preservação das conexões cerebrais e abre caminho para novas estratégias de proteção durante a recuperação
Bruna Valle
06/10/2026
Passar por uma cirurgia de grande porte exige um período de recuperação que vai muito além da cicatrização. Em alguns pacientes, podem surgir temporariamente dificuldades de memória, atenção e outras funções cognitivas. Agora, pesquisadores encontraram um mecanismo que pode ajudar a explicar por que isso acontece e, principalmente, apontar uma forma de proteger o cérebro.
O estudo identificou a proteína 14-3-3γ como uma possível peça importante nesse processo. Os pesquisadores observaram que a substância está relacionada à manutenção da atividade dos neurônios e que sua redução após uma cirurgia foi acompanhada por alterações em uma proteína chamada tau, além de problemas nas conexões entre as células nervosas.
Uma proteína que ajuda a manter o equilíbrio no cérebro
A proteína tau desempenha funções importantes dentro dos neurônios. Para que ela funcione adequadamente, seu nível de fosforilação precisa permanecer sob controle.
Nos experimentos, a queda de 14-3-3γ no cérebro foi associada ao aumento da fosforilação da tau em uma região específica, chamada Thr205. Esse desequilíbrio veio acompanhado de alterações nas sinapses (estruturas responsáveis pela comunicação entre os neurônios) e de prejuízos em testes de memória realizados nos animais.
Os resultados sugerem que a 14-3-3γ atua como uma espécie de reguladora desse sistema. Quando sua presença foi aumentada experimentalmente, parte das alterações provocadas pela cirurgia foi revertida.
Resultados também foram observados em pacientes
A pesquisa não ficou restrita aos experimentos em laboratório. Os cientistas analisaram dados de uma coorte prospectiva com 213 pacientes submetidos a cirurgias e avaliaram a relação entre os níveis circulantes da proteína e os resultados cognitivos no período perioperatório.
Os níveis de 14-3-3γ no sangue apresentaram associação com alterações cognitivas após a cirurgia e também com delirium no período pós-operatório. Isso não significa que a proteína, sozinha, determine quem terá ou não problemas cognitivos, mas reforça a possibilidade de que ela participe desse processo.
A equipe também encontrou evidências relacionadas à vulnerabilidade cognitiva e a processos associados à neurodegeneração em análises de proteínas presentes no líquido cefalorraquidiano.
Um caminho para futuras estratégias de proteção
Em outra etapa, os pesquisadores testaram maneiras de preservar a interação entre a 14-3-3γ e a tau. Uma pequena molécula chamada fusicoccina-A foi utilizada experimentalmente para estabilizar essa ligação.
Nos camundongos, a estratégia reduziu a alteração da tau, ajudou a preservar estruturas das sinapses e melhorou o desempenho em testes de memória. Quando a equipe aumentou experimentalmente a presença da 14-3-3γ no cérebro, também observou recuperação de alterações provocadas pela cirurgia.
Esses resultados ainda estão longe de representar um tratamento disponível para pacientes. Os experimentos ajudam a esclarecer os mecanismos envolvidos e indicam possíveis alvos para pesquisas futuras.
Descoberta pode ajudar na recuperação pós-cirúrgica
O trabalho amplia a compreensão sobre uma questão que ainda não é totalmente explicada pela medicina: por que alguns pacientes apresentam alterações cognitivas depois de procedimentos cirúrgicos importantes.
Ao relacionar a proteína 14-3-3γ, a regulação da tau e a preservação das sinapses, os pesquisadores identificaram uma possível sequência biológica envolvida nesse processo. O próximo passo será entender melhor como esse mecanismo funciona em diferentes pacientes e se estratégias capazes de preservá-lo poderão, no futuro, contribuir para uma recuperação cerebral mais segura após cirurgias.


