BC diz que estuda medidas para conter endividamento com foco em crédito de maior risco
BC diz que estuda medidas para conter endividamento com foco em crédito de maior risco
Reuters
27/10/2026
Atualizada em 27/10/2026
BRASÍLIA, 27 Out (Reuters) - O Banco Central estuda adotar medidas macroprudenciais voltadas a segmentos de crédito de maior risco, afirmou a autoridade monetária em relatório divulgado nesta terça-feira, citando experiências internacionais de reforço na avaliação sobre a capacidade de pagamento das pessoas que contraem dívidas.
Em seu Relatório de Estabilidade Financeira, publicação semestral, a autoridade monetária ressaltou que as medidas em avaliação têm o objetivo de reduzir o superendividamento e fortalecer a sustentabilidade do crédito e a resiliência do sistema financeiro nacional.
O BC apontou que pesquisa da autarquia indica que a crescente digitalização dos serviços financeiros tem ampliado significativamente a exposição de consumidores de menor renda a ofertas, contribuindo para intensificar o endividamento, tema que é 'fonte relevante de preocupação para o BC e para o mercado financeiro'.
'Diversos países já utilizam medidas macroprudenciais para mitigar as vulnerabilidades dos tomadores, buscando reforçar a resiliência das famílias ao longo do ciclo financeiro', disse o BC no documento.
Segundo a autarquia, nesse processo o desafio é capturar as diferentes dimensões das vulnerabilidades dos tomadores de crédito para subsidiar o desenho de instrumentos adequados. Nesse sentido, uma tendência comum é a crescente incorporação da situação financeira e da capacidade de pagamento dos tomadores ao monitoramento da estabilidade financeira.
O presidente do BC, Gabriel Galípolo, tem destacado a preocupação com os níveis de endividamento no país, ressaltando a importância da promoção do uso responsável dos instrumentos de crédito e do devido provisionamento por parte dos bancos. Em agosto já havia afirmado que o BC estava avaliando experiências internacionais de medidas macroprudenciais.
A Reuters mostrou na semana passada que o conjunto de ações em preparação pelo BC começaria por medidas de prevenção e transparência, enquanto a autarquia ainda analisa modelo regulatório que poderá limitar o crédito autorizado por pessoa a depender do nível de renda --sistema usado por Cingapura.
O plano foi iniciado três dias depois, quando o BC aprovou três resoluções sobre as responsabilidades de instituições financeiras na oferta e concessão de crédito, com novas salvaguardas contra ofertas inadequadas ou abusivas e maior transparência antes da contratação.
Em seu relatório, a autarquia citou avaliação do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre o Brasil na qual a instituição enfatiza que a análise do endividamento das famílias deve ir além da inadimplência e considerar também a capacidade dos tomadores de absorver choques, destacando indicadores como a relação entre o serviço da dívida e a renda da pessoa.
'Riscos associados à concessão de crédito incompatível com a situação financeira dos consumidores demonstram a necessidade de ampla coordenação para evitar o superendividamento das famílias', disse.
No documento, a autarquia mencionou o sistema de Cingapura, que limita o comprometimento da renda com o serviço da dívida e tem medidas para 'restringir o acúmulo excessivo de dívida pelas famílias', bem como modelos de Canadá, Suécia, Coreia do Sul e Nova Zelândia, que têm exigências ou limitações na concessão de crédito.
O BC apontou ainda que o apetite a risco das instituições financeiras mostrou sinais de redução no primeiro semestre, quando o financiamento à economia real desacelerou, e a perspectiva é de crédito ainda mais restritivo no segundo semestre.
'O ambiente de juros contracionistas, elevado endividamento e maior materialização de risco requer cautela e diligência adicionais na concessão de crédito, tanto na qualidade das operações quanto no apetite ao risco', disse o BC.
Segundo a autarquia, a despeito de as incertezas seguirem elevadas, não há risco relevante para a estabilidade financeira no país.
(Por Isabel Versiani e Bernardo Caram; Edição de Eduardo Simões)
Reuters

