Oferta monetária pode contribuir de forma marginal para decisões do Fed, dizem analistas
Oferta monetária pode contribuir de forma marginal para decisões do Fed, dizem analistas
Reuters
29/07/2026
Por Michael S. Derby
29 Jul (Reuters) - O retorno das medidas de oferta monetária às discussões do Federal Reserve pode ajudar as autoridades a identificar melhor as tendências de inflação de longo prazo, mas provavelmente continuará sendo um fator secundário nas deliberações sobre juros, afirmam analistas.
Os indicadores da oferta monetária já estiveram no centro da formulação da política monetária, com base na premissa de que a quantidade de dinheiro circulando na economia -- e a velocidade com que isso ocorria -- era fundamental para a equação da inflação: se houver dinheiro demais perseguindo bens em quantidade insuficiente, a inflação se instala.
Mas décadas de inovação no setor financeiro corroeram essa relação, e os banqueiros centrais dos EUA basicamente deixaram de prestar atenção ao tema -- até a recente chegada de Kevin Warsh como novo chair do Fed.
Warsh incluiu uma breve seção sobre a oferta monetária no último Relatório de Política Monetária do Fed, no início deste mês, a primeira menção formal ao tema em uma década. O indicador em questão é o M2, que acompanha a moeda em circulação e os depósitos bancários, bem como os depósitos a prazo de pequeno porte e as cotas de fundos do mercado monetário.
“Foi uma surpresa que escondemos ali para ver se alguém lê esses relatórios de política monetária”, disse Warsh em uma audiência no Senado em 15 de julho.
“Não estou aqui como monetarista. Não venho aqui dizer que o segredo para a inflação é que, se soubéssemos apenas o M2, tudo estaria ótimo”, disse Warsh. Em vez disso, “minha opinião é que um banqueiro central moderno deve ter um mosaico de informações” e “o dinheiro importa”.
Se tivesse sido dada mais atenção à oferta monetária durante a resposta massiva de política monetária à pandemia da Covid-19, disse Warsh, as autoridades poderiam ter se saído melhor na identificação da alta inflação que surgiu.
O crescimento anual do M2 atingiu um recorde de 27% no início de 2021, mais de um ano antes de o Fed começar a aumentar as taxas de juros para combater a inflação, que chegou a 7,2% segundo o indicador que o banco central usa como meta.
Após uma breve contração diante dos aumentos das taxas pelo Fed, o crescimento anual do M2 voltou a atingir a maior alta em quatro anos, embora, em 5,6% em maio, permaneça cerca de 1,2 ponto percentual abaixo de sua média desde 1960.
Enquanto isso, o indicador de inflação do Fed ficou em 4,1% em sua leitura mais recente para maio, mais do que o dobro de sua meta.
TUDO GIRA EM TORNO DO DINHEIRO
Economistas e alguns ex-membros do Fed concordam que voltar o olhar para o M2 pode ajudar a identificar tendências de inflação de longo prazo, em um momento em que o Fed vem lutando contra cinco anos de índices de preços acima de sua meta de 2%.
Esse aumento da pressão sobre os preços, posteriormente agravado pela agenda econômica e de política externa do presidente Donald Trump, teve origem nas medidas agressivas de estímulo adotadas durante a pandemia. O aumento do M2, de fato, indicava pressões inflacionárias duradouras que, na época, haviam sido vistas como temporárias.
“Acho que é bom lembrar a todos que a política monetária, em última análise, trata de dinheiro”, disse James Bullard, reitor da Mitch Daniels School of Business da Universidade de Purdue e ex-presidente do Fed de St. Louis, que tem uma longa tradição de monetarismo.
“Entendemos que o crescimento da oferta monetária pode oscilar” e deve ser visto com certa cautela, “mas se (os indicadores da oferta monetária) se tornarem realmente significativos em uma direção ou outra, talvez seja algo a que se deva prestar atenção”, disse Bullard.
Wall Street também tomou nota.
“Embora a velocidade do dinheiro possa ser altamente instável, constatamos que o excesso de oferta monetária tem apresentado correlação positiva com a inflação nas últimas décadas, particularmente durante períodos de rápido crescimento excessivo da oferta monetária”, afirmaram economistas do Deutsche Bank em um novo relatório. Ao mesmo tempo, eles alertaram contra uma dependência excessiva desse indicador na formulação de políticas, o que coincide com a visão de Warsh de que ele deve ser simplesmente parte do conjunto de dados que os formuladores de políticas devem acompanhar.
O foco que Warsh trouxe à oferta monetária pode até ter aberto a mente do ex-diretor do Fed Stephen Miran -- um 'super-dove' que deixou o conselho da instituição -- para uma perspectiva de política monetária mais 'hawkish' (dura com a inflação).
No momento, “a maioria dos agregados monetários não sugere que a alta inflação recente se mostrará persistente, e pode ser inadequado atribuir a inflação elevada dos últimos trimestres ao crescimento monetário excessivo”, afirmou um artigo recente para a Hudson Bay Capital em que Miran é coautor.
Mas, “se o crescimento monetário começar a acelerar a partir dos níveis atuais, isso sugeriria que uma política monetária mais restritiva seria apropriada”.
Essa é uma mudança reveladora para o ex-consultor econômico de Trump, que, em seu curto mandato no Fed, defendeu cortes agressivos nas taxas de juros apesar da inflação acima da meta, manifestando-se a favor de uma política mais flexível em cada uma das seis reuniões de política monetária das quais participou.
NÃO TÃO RÁPIDO
Dito isso, o retorno da oferta monetária ao cenário tem seus céticos.
“Nós resmungamos um pouco” quando o M2 apareceu no relatório do Fed, disseram analistas da Wrightson ICAP. Ele havia sido removido “por um bom motivo”, pois “os agregados monetários tradicionais não têm sido um indicador confiável das tendências da inflação, nem de muita outra coisa, há décadas”.
Enquanto isso, William English, ex-alto funcionário do Federal Reserve que agora está na Yale School of Management, disse que análises recentes que tentam vincular a inflação pós-pandemia ao aumento da oferta monetária subestimam o papel da política fiscal e de medidas como o envio de cheques às famílias durante a crise de saúde. Isso significa que o aumento da pressão sobre os preços se deveu mais a esses fatores e menos à política monetária do Fed e à criação de dinheiro.
Bill Nelson, economista-chefe do grupo de lobby Bank Policy Institute e também ex-funcionário do Fed, alertou para a associação da oferta monetária às ainda vultosas carteiras de títulos do Fed.
“Não só não há uma relação confiável entre a oferta monetária e a atividade econômica, como também não há uma relação confiável entre a oferta monetária e o balanço patrimonial do Federal Reserve”, escreveu Nelson no início deste mês. Grande parte do dinheiro que o banco central criou durante a pandemia simplesmente existia como reservas que nunca entraram na oferta monetária.
(Reportagem de Michael S. Derby)
Reuters

