Preso pela PF, deputado eleito no RJ é suspeito de articular esquema criminoso que movimentou R$7,6 bi
Preso pela PF, deputado eleito no RJ é suspeito de articular esquema criminoso que movimentou R$7,6 bi
Reuters
15/10/2026
Atualizada em 15/10/2026
Por Rodrigo Viga Gaier e Ricardo Brito
RIO DE JANEIRO/BRASÍLIA, 15 Out (Reuters) - A Polícia Federal prendeu nesta quinta-feira o deputado estadual eleito pelo Rio de Janeiro Márcio Canella (União Brasil), apontado pelas investigações como o principal articulador político de uma organização criminosa responsável pela exploração ilegal de postos de gasolina e outros crimes, em um esquema que movimentou R$7,6 bilhões.
De acordo com decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), tornada pública pouco após a prisão de Canella, o político exercia função de 'elevada relevância' dentro da estrutura criminosa investigada, atuando como principal articulador político da organização e elo entre o núcleo empresarial responsável pela exploração da rede de postos de combustíveis, agentes públicos e demais integrantes da associação criminosa.
'Os elementos colhidos revelariam a existência de sofisticada organização criminosa responsável pela movimentação de valores superiores a R$7,6 bilhões, mediante utilização de extensa rede empresarial, especialmente no setor de combustíveis, além de manter relações com agentes públicos responsáveis por garantir proteção institucional às atividades ilícitas', afirmou Moraes em sua decisão.
A operação da PF desta quinta, a oitava fase da Operação Unha e Carne, também levou à prisão o ex-chefe da Polícia Civil fluminense Marcus Amim.
Procurados, representantes de Canella e Amim não responderam imediatamente.
Na representação encaminhada ao STF, a PF disse que a organização criminosa se pautou por um 'ecletismo econômico e pragmatismo geopolítico que transcendem cisões faccionais, estabelecendo pontes operacionais com milícias e com o tráfico de drogas para fins de perenidade territorial e blindagem política'.
Segundo a PF, entre os indícios que fortalecem a atuação de Canella em proveito de organizações criminosas estão áudios em que pessoas ligadas a ele e lideranças da cúpula do Comando Vermelho trocavam informações sobre uma atuação combinada com o político, que também foi prefeito de Belford Roxo (RJ), inclusive visando benefícios eleitorais.
O esquema criminoso previa, por exemplo, a retirada consentida de barricadas por traficantes locais com o objetivo de permitir a execução de obras públicas e sua posterior exploração político-eleitoral pela prefeitura, de acordo com a polícia. Em troca, ainda de acordo com a PF, a administração pública e um intermediário ligado à polícia garantiriam a redução deliberada das operações de segurança na região e a devolução pacífica do controle territorial aos traficantes logo após a conclusão das obras.
Em comunicado, a PF disse que a Justiça expediu 6 mandados de prisão e 16 de busca e apreensão a serem cumpridos no Rio de Janeiro, Niterói, Angra dos Reis, Petrópolis, Armação dos Búzios, Nova Iguaçu e São Gonçalo, todas cidades do Rio de Janeiro.
De acordo com a corporação, a operação tem “o objetivo de desarticular organização criminosa armada suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio de Janeiro como plataforma de lavagem de dinheiro'.
'O grupo investigado conta com a participação de agentes públicos e articulação político-institucional”, acrescentou a PF.
As investigações apontam que o grupo usava quase 100 postos de combustíveis no Rio para lavar dinheiro de atividades criminosas. Dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontam que foram movimentados R$7,6 bilhões na rede de postos nos últimos seis anos.
“A Justiça determinou ainda o sequestro de bens e valores, além da suspensão das atividades econômicas de 112 empresas ligadas à rede de lavagem de dinheiro“, afirmou a PF.
Canella chegou a ser preso em julho deste ano na sexta fase da operação Unha e Carne após um fuzil ser encontrado em um carro dele. Na época, ele era pré-candidato ao Senado, mas acabou disputando uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro pelo União Brasil, sendo o segundo candidato mais votado e elegendo-se com 197.178 votos.
Além do crime de organização criminosa armada, os investigados responderão, na medida de suas responsabilidades, por lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel, além de outros que poderão surgir no decorrer das investigações, disse a PF.
(Edição de Pedro Fonseca e Eduardo Simões)
Reuters

