Último debate entre Flávio e Lula reedita troca de acusações e avança pouco em propostas
Último debate entre Flávio e Lula reedita troca de acusações e avança pouco em propostas
Reuters
24/10/2026
Por Maria Carolina Marcello
BRASÍLIA, 24 Out (Reuters) - A dois dias do segundo turno da eleição presidencial, o debate entre os dois candidatos -- o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) -- na TV Globo foi palco de mais um round de trocas de acusações e avançou um pouco em relação à exposição de planos de governo.
Os candidatos foram para o debate com estratégias específicas de olho no eleitor indeciso. Flávio decidiu focar no custo de vida e prometeu manter programas sociais. Lula chamou a atenção para a defesa da democracia e lembrou que foram os governos petistas que criaram e reforçaram os programas sociais em vigor.
'Em quatro anos de governo, você consegue comprar mais ou menos com o seu salário?', questionou Flávio.
'Está difícil comprar. Quando você consegue comprar, você está levando menos para a sua casa, esse é o legado do atual governo', disse Flávio.
Já Lula, não só defendeu a democracia como acusou o adversário de 'miliciano'.
'Eu sou um homem que tenho biografia, tenho história', disse o presidente. 'Eu queria, primeiro agradecer... e pedir o voto de vocês no domingo porque ou a gente mantém a democracia funcionando ou a gente vai ter um miliciano governando esse país dentro do Palácio do Planalto', disse Lula, em menção a Flávio que rendeu um direito de resposta ao senador.
Flávio negou envolvimento com milícia na sequência -- 'isso é coisa da sua cabeça' -- e prometeu classificar as milícias como narcoterroristas.
A organização do debate chegou a impor regras sobre a circulação dos candidatos, de forma a evitar desgastes ocorridos no debate de domingo na TV Band. Veículos e entidades paralelamente fizeram o acompanhamento do debate para checagem de fatos. Mas ainda assim, houve uma reedição de trocas de acusações e era perceptível o clima de Fla-Flu na plateia, que em alguns momentos chegou a se manifestar.
Lula questionou Flávio sobre posicionamentos públicos do senador contrários a programas sociais e chegou a perguntar ao senador por que se referiu ao Bolsa-Família como 'Bolsa-Farelo'.
Flávio, por sua vez, apontou a gestão petista dos gastos públicos como responsável pelos juros altos, que resvalam no poder de compra da população. No quesito juros, aliás, Lula lembrou que foi no governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, que foi aprovada a autonomia do Banco Central, entidade responsável pela definição da taxa básica de juros do país.
Os candidatos também conseguiram emplacar argumentos e frases com forte apelo, principalmente para os cortes e edições de trechos a serem usados nas redes sociais nessas últimas horas antes da abertura das urnas eleitorais.
Em resposta a Flávio, que referiu-se ao presidente como 'nove dedos', Lula lembrou que perdeu o dedo em um acidente de trabalho.
'Se tem alguém aqui nesse púlpito que sabe o que é o mundo do trabalho sou eu. Se tem alguém que perdeu o dedo com 17 anos fui eu', disse Lula, provocando reações da plateia. 'Milhões de trabalhadores se acidentam por irresponsabilidade patronal, que obriga a gente a trabalhar em jornada que a gente tem que trabalhar. Eu era menor e trabalhava à noite, porque ou trabalhava ou não comia e não vou aceitar que um granfino, com uma prática política muito duvidosa, venha me chamar de nove dedos.'
Após a dura declaração do presidente, Flávio se desculpou, dizendo que não tinha intenção de ser ofensivo.
O senador, por outro lado, buscou se apresentar como o candidato da mudança, da novidade.
'Nem parece que ele é o atual presidente da República... Ele parece que parou no tempo. Infelizmente o atual presidente da República, as ideias que ele tinha -- que eram boas lá atrás --... hoje não funcionam mais', afirmou.
Os dois também cometeram deslizes no decorrer do debate. Lula volta e meia se perdia nas regras e precisava ser lembrado pelo moderador que ainda tinha tempo para desenvolver sua fala.
Já Flávio -- questionado por Lula sobre sua escolha em atuar na defesa de um policial acusado de matar uma criança de 5 anos em Niterói, no Rio de Janeiro -- cometeu um equívoco. Na intenção de prestar solidariedade à mãe da menina, que estava na plateia, se confundiu ao chamá-la pelo nome da criança morta.
Em outro momento, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro voltou a ser citado. Lula cobrou Flávio sobre o dinheiro que pediu ao banqueiro -- o senador reafirmou que era para o financiamento de um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. O senador, por sua vez, acusou Lula de receber um uísque do banqueiro de presente.
Houve até mesmo uma renovação do desafio de Lula para que os dois abram suas contas bancárias e provem que não são corruptos.
Flávio Bolsonaro é alvo de dois inquéritos no STF: um que apura suspeitas relacionadas exatamente ao financiamento do filme 'Dark Horse' e outro sobre suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz.
Mas se Lula não é alvo de investigação criminal conhecida atualmente, Flávio voltou a se concentrar em seu filho, conhecido como Lulinha, que é investigado pela Polícia Federal sobre suposto tráfico de influência.
Na segunda metade do debate, quando os ataques e acusações de ambos os candidatos se intensificaram, a plateia começou a se manifestar e a reagir a respostas dos presidenciáveis. O clima, no entanto, foi mais ameno que no debate do último domingo.
(Reportagem de Maria Carolina Marcello, em Brasília; reportagem adicional de Rodrigo Viga Gaier, no Rio de JaneiroEdição de Alexandre Caverni)
Reuters

