Lula pede união da América do Sul em cúpula, mas ouve críticas à posição sobre Venezuela
Lula pede união da América do Sul em cúpula, mas ouve críticas à posição sobre Venezuela
Reuters
30/05/2023
Por Lisandra Paraguassu
BRASÍLIA (Reuters) - Ao reunir pela primeira vez em nove anos os chefes de Estado da América do Sul, nesta terça-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu aos mandatários que não deixem que a ideologia os divida, mas ouviu críticas por suas declarações, na véspera, sobre a situação na Venezuela.
'Na região, deixamos que as ideologias nos dividissem e interrompessem o esforço da integração. Abandonamos canais de diálogo e mecanismos de cooperação e, com isso, todos perdemos', disse Lula ao abrir a reunião em Brasília.
'Tenho a firme convicção de que precisamos reavivar nosso compromisso com a integração sul-americana. Por essa razão convidei a todos para a reunião de hoje, que será seguida, em agosto, da Cúpula dos Países Amazônicos. Os elementos que nos unem estão acima de divergências de ordem ideológica.'
Criada em 2008, a Unasul está paralisada desde 2018. No ano seguinte, vários países da região -- incluindo o Brasil, então sob o comando de Jair Bolsonaro -- formaram a ProSul, uma dissidência de direita criada pelos governos à época do chileno Sebastián Piñera e do colombiano Iván Duque.
Os dois blocos estão praticamente abandonados, apesar de Brasil e Argentina terem anunciado em janeiro a volta formalmente à Unasul.
A retomada do bloco é uma das alternativas, mas nem todos os presidentes da região -- hoje ainda dividida ideologicamente -- veem com bons olhos a volta da Unasul. O bloco ficou muito marcado pela ideia de governos de esquerda, uma vez que foi criado em 2008 durante a gestão anterior de Lula com os líderes da época de Venezuela e Argentina, Hugo Chávez e Cristina Kirchner, respectivamente.
O presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou, que decidiu transmitir nas redes sociais sua fala durante a reunião fechada dos presidentes, lembrou seu país foi um dos que se retirou da entidade, ao mesmo tempo que não quis se associar à ProSul, por discordar dos caminhos do bloco.
'Temos que parar essa tendência à criação de organizações, passemos a ações. Chega de instituições. Insisto, usemos os mecanismos que temos, as instituições que participamos', defendeu o uruguaio, ao mesmo tempo que disse celebrar a 'liderança das grandes nações' e o fato de o Brasil não estar 'omisso a seus deveres'. Segundo Lacalle Pou, é necessário 'consequência e resultados positivos', além de concretos.
Em sua fala, Lacalle Pou fez uma crítica direta a Lula, que, na véspera, chamou de 'narrativa' as acusações de ações antidemocráticas e problemas com direitos humanos na Venezuela. Lula deu as declarações ao receber o presidente venezuelano, Nicolás Maduro.
'Fiquei surpreendido quando se falou que o que aconteceu na Venezuela é uma narrativa', disse Lacalle Pou na mesa de reunião com Lula e o próprio Maduro.
'Se há tantos grupos no mundo que estão tratando de mediar para que a democracia seja plena na Venezuela, que se respeite os direitos humanos, que não haja presos políticos, o pior que podemos fazer é tapar o sol com a peneira. Damos o nome que tem e ajudamos', acrescentou
O presidente do Chile, Gabriel Boric, disse que não se pode 'fazer vista grossa' ou 'varrer para debaixo do tapete' o tema dos direitos humanos que, para ele, remete a princípios importantes. 'Não é uma construção de narrativa, é uma realidade.'
Em entrevista coletiva, depois da cúpula, Lula defendeu sua posição em relação à Venezuela.
'Eu sempre defendi a ideia de que cada país é soberano para decidir o seu regime político, para decidir que tipo de eleição vai ter, e para discutir as coisas internas', disse a jornalistas. 'É importante que a gente tenha clareza, que as mesmas exigências que o mundo democrático faz para a Venezuela, não faz para a Arábia Saudita. É muito estranho', argumentou.
Lula afirmou ainda que disse a Maduro para fazer um documento com todos os partidos de oposição e governadores da Venezuela, pedindo respeito à soberania do país.
Durante a cúpula, Lula defendeu o legado da Unasul e pediu que seus ganhos não sejam esquecidos, mesmo que se façam aperfeiçoamentos.
'A América do Sul tem diante de si, mais uma vez, a oportunidade de trilhar o caminho da união. E não é preciso recomeçar do zero. A Unasul é um patrimônio coletivo. Lembremos que ela está em vigor. Sete países ainda são membros plenos. É importante retomar seu processo de construção', disse.
'Mas, ao fazê-lo, é essencial avaliar criticamente o que não funcionou e levar em conta essas lições. Precisamos de mecanismos de coordenação flexíveis, que confiram agilidade e eficácia na execução de iniciativas.'
SEM UNANIMIDADE
O governo brasileiro apresentou algumas propostas de integração para serem discutidas pelos presidentes. Uma delas é que uma futura entidade, seja ou não a Unasul, abandone a regra de decisões por unanimidade que a regeu até agora e paralisava boa parte das ações por meses.
'Nossas decisões só terão legitimidade se tomadas e implementadas democraticamente. Mas a regra do consenso poderia estar restrita a temas substantivos, evitando que impasses nas esferas administrativas paralisem nossas atividades', defendeu Lula.
Na lista de propostas entram a criação de um mecanismo de compensação comercial mais eficiente e de uma unidade de referência para o comércio regional, reduzindo o uso de moedas estrangeiras para pagamentos internos, uma bandeira que Lula tem levantado em outros fóruns e com outros países, como a China.
'Se hoje damos os primeiros passos para retomar o diálogo enquanto região, o contexto que enfrentamos é ainda mais desafiador do que foi no passado', disse Lula. 'Enquanto estivermos desunidos, não faremos da América do Sul um continente desenvolvido em todo o seu potencial. A integração deve ser objetivo permanente de todos nós.'
Reuters

